A Rede Nacional de Comunicação
Pública, encabeçada pela TV Brasil em parceria com emissoras educativas em 23
estados, está no ar desde o dia 3 de maio. A empreitada é um passo mais sólido
para reverter a disparidade entre as emissoras do campo público e as grandes
redes comerciais. A nova rede cobrirá 1.716 municípios, atingindo 100 milhões de
brasileiros. Neste primeiro momento, a rede funcionará com transmissões
simultâneas de dez horas de programação, sendo quatro de responsabilidade das
emissoras associadas.
O fortalecimento do conjunto das emissoras
públicas e o modelo de rede que incentiva a produção local são apontados como os
pontos fortes da nova rede. Porém, ainda há entraves ao seu pleno
desenvolvimento. Alguns dos problemas já apontados pelas próprias TVs que tomam
parte da rede e a Empresa Brasil de Comunicação (EBC) é o modelo de gestão das
emissoras estaduais, ainda com forte ingerência estatal, e o Operador de Rede
Pública Digital, que levará o sinal da TV Brasil e de outras emissoras federais
para todo o país e está em fase final de licitação. A entrada em funcionamento
do operador digital pode colocar as filiadas em numa faixa do espectro com baixa
qualidade na imagem e impossibilitá-las de realizar multiprogramação.
Além destas duas questões, defasagens na estrutura física, dificuldades
na captação de recursos e, consequentemente, produção de conteúdo pelas
emissoras locais são os outros obstáculos para uma relação equânime com a TV
Brasil e também para a concorrência com as redes comerciais nas regiões de
cobertura do sinal.
Nas palavras de Tereza Cruvinel, diretora presidente
da EBC, “a rede pública de televisão é um sonho antigo mas faltava dar
centralidade ao projeto”, papel que teria sido cumprido agora pela TV Brasil. “A
rede serve à expansão da TV Brasil, mas seu papel é muito mais estratégico:
assegura maior equilíbrio entre os sistemas público e privado de radiodifusão e
a circulação de conteúdos que efetivamente expressam as regiões e a diversidade.
Acreditamos, ainda, que a rede injetou energia e disposição criadora a todas as
televisões associadas”, analisa Tereza.
Regina Lima, presidente da
Associação Brasileira de Emissoras Públicas, Educativas e Culturais (ABEPEC),
defende critérios diferenciados das redes comerciais ainda no modelo analógico.
“É preciso pensar políticas globais mais definidas para se ter qualidade em
todas as TVs”, comenta Regina, citando os casos da TV Cultura de São Paulo, da
Rede Minas (MG) e a própria EBC como representantes diferenciadas na
rede.
Gestão
A Rede Nacional de TVs Públicas
conta com um comitê gestor, formado por 19 emissoras, mais as quatro ligadas a
EBC (em Brasília, Rio, São Paulo e São Luís), num total de 23. A instância tem
um núcleo executivo, composto por um representante da EBC, mais quatro, sendo um
representante de cada região do país (Norte, Nordeste, Centro-Oeste e
Sul/Sudeste), escolhidos entre os membros do comitê e com mandatos em sistema de
rodízio.
Os mencionados problemas com a gestão, entretanto, não dizem
respeito à rede, mas aos modelos vigentes na maioria das emissoras, incompatível
com o mínimo esperado de uma TV pública. Na maioria das educativas estaduais
ainda prevalece o modelo estatal, com diretores indicados pelo Executivo. A
saída para não emperrar as negociações neste quesito, já que o projeto da EBC
exige que suas parceiras sejam emissoras de caráter público, foi colocar no
contrato uma indicação para as representantes estaduais buscarem mudar seu
modelo de gestão.
A referência é a EBC, que conta com um Conselho
Curador. Embora sua atual composição tenha sido indicada pelo Executivo, a
própria lei que criou a estatal previa um processo de abertura, com a realização
de consultas públicas para a indicação de novos conselheiros. Atualmente, está
em curso a escolha de três novos membros, que será feita pelo presidente da
República a partir de indicação pública por organizações da sociedade
civil.
Além da cláusula contratual, haverá um incentivo a mais para que
as emissoras da rede abram mais espaços participativos na sua estrutura. Aquelas
que caminharem para o modelo público de gestão contarão com a injeção de mais
recursos pela EBC.
Póla Ribeiro, diretor do Instituto de Radiodifusão
Pública da Bahia (Irdeb), vê a movimentação para gestão pública com “carinho”,
por ser uma resolução da Carta de 2007 do Fórum de TVs Públicas, mas que foi
tirada da prioridade em prol da consolidação da rede. Ribeiro lembra que a
maioria das emissoras estaduais estão “jogadas ao acaso” e a transformação
imediata em pública pode não ser acompanhada pela sociedade.
Regina Lima
vê no uso da multiprogramação no sistema digital como uma chance para se
solucionar um dos principais obstáculos para mudanças na gestão: a relação com
os governos estaduais. “A possibilidade de não ter uma única programação, na
qual todo mundo cobra participação para divulgar suas ações, e gerar pelo menos
três novos canais, poderá diminuir a pressão em cima da programação [das atuais
emissoras educativas], para investirmos mais no caráter público”, explica a
presidente da Abepec.
Operador de Rede
Os
problemas oriundos da digitalização prometem ser mais difíceis ainda de superar
na expansão da Rede Pública. O principal deles diz respeito ao cenário após a
entrada em operação do Operador de Rede Público, responsável em distribuir os
sinais das emissoras para o padrão digital. A licitação
do operador foi aberta pela governo em dezembro do ano passado com consultas
públicas que focaram questões técnicas e jurídicas com respostas já disponíveis
na página eletrônica da EBC. Nos planos do governo federal, o canal usado com
exclusividade pela TV Brasil será o único a ter sua transmissão em alta
definição (HD). Todos os outros que usarão o operador de rede – os canais do
Executivo (NBR e os canais Educação, Cultura e Cidadania) e do Legislativo (TV
Senado e TV Câmara) – usarão uma qualidade inferior, o Standard Definition (SD).
Diante disso, Regina Lima, que também é diretora da Fundação Paraense de
Radiodifusão (Funtelpa), diz que, apesar de a EBC ainda não ter tornado pública
qualquer proposta a este respeito, as emissoras estaduais entendem que tomar
parte do operador único significa abrir mão de transmitir em HD. “Foi pensado um
operador nacional, não para o nível estadual. A minha compreensão é que se
aderirmos [ao operador nacional], vamos entrar em baixa definição. Ninguém que
tem 6MHz vai querer isso”, explica a presidente da Abepec, fazendo menção ao
fato de que por terem concessão no sistema analógico, as educativas têm direito
a um canal também no espectro digitalizado.Além disso, há a ameaça de
que emissoras estaduais sejam transmitidas nas suas localidades sem o direito a
multiprogramação, concorrendo de forma desigual com a TV Brasil. Hoje, a
multiprogramação só é permitida a emissoras que tenham ligação com entes
federais. Póla Ribeiro expõe o que tem sido posição recorrente entre as
filiadas da Abepec: “Temos interesse em constituir a nossa própria transmissão
digital ao ocupar todos as faixas do espectro de 6MHz [dos canais próprios das
educativas]. Tivemos um atraso razoável [na transição para o digital] e
precisamos correr atrás desse prejuízo.” Ribeiro pensa que os estados possam
também ter um canal da comunidade, um da educação, um de música, um da TV Brasil
e outro universitário, por exemplo. “Não queremos uma faixa com apenas quatro
horas de conteúdo”, conclui Póla. Estrutura e
Programação
Outros problemas históricos de estrutura,
financiamento e produção das emissoras do campo público também são elementos de
divergências. O superintendente da Rede Nacional de Comunicação Pública, Marco
Antônio Coelho, diz que outras iniciativas serão postas em prática para alcançar
os princípios defendidos pela presidente Tereza Cruvinel e pelo Fórum de TVs
Públicas, a começar pela captação. Hoje, o orçamento das emissoras estaduais é
restrito a cotasde repasses estatais e há uma limitação de patrocínio, muitas
vezes burladas por propagandas comerciais tradicionais. “Com a rede, iremos
desenvolver um formato de captação nacional que tenha no bojo incentivo a quem
produz. Aquele que produzir e colocar em rede, vai ter retorno financeiro. Não
queremos tutelar, mas que eles próprios se capacitem para buscar isso. Um
trabalho exaustivo que também envolve rateio de anúncios institucionais”,
explica Coelho. Segundo ele, apenas a a Rede Minas e a TVE Bahia contam com
departamento de captação, porém limitado.
Regina Lima enxerga no modelo
proposto de captação para a programação vinculada a rede algo próximo das redes
comerciais. “Formularam uma tabela para captação na qual questionei os
critérios. Os percentuais são diferenciados. Tem TV que vai ganhar 1,5% e outras
como a RedeMinas 5,5%”, comentou. Quanto à estrutura, a representante da
emissora paraense explica que o investimento é necessário para dar condições as
estaduais produzirem conteúdo.
Ainda como reposta ao Fórum de TVs
Públicas, o superintendente detalha o desenvolvimento de um sistema de
co-produções que ainda não foi assinado: “Nós vamos dar recursos pras emissoras
[estaduais]. Ao invés delas fazerem o produto, pegamos os recursos e vamos aos
parceiros. Nesse momento, usa-se a produção independente local.”
As
iniciativas mais enérgicas neste momento, de acordo com Coelho, serão para as
emissoras mais deficitárias, principalmente as universitárias, cuja concessão
para transmitirem em sinal aberto é autorizada pela própria EBC. Mato Grosso,
Roraima, Pernambuco e Rio Grande do Norte estão sendo contemplados. No caso da
Paraíba, citou o investimento direto na montagem de antena e
transmissor.
Em Salvador, Póla Ribeiro diz que já há avanços concretos
relacionados à rede. “Conseguimos a institucionalização de alguns apoios que
estamos maturando há dois anos. O recurso é pequeno, mas o gesto é importante.
Na parte do jornalismo, vai comprometer o regional com o nacional. Nos programas
infantis, cada estado vai desenvolver a sua própria programação com apoio da
EBC”, cita.
Pedro Caribé Observatório do Direito à Comunicação
|