Em
Brokeback, a denúncia pode virar álibi
"O segredo de Brokeback Mountain", de Ang Lee, é um belo filme. Uma denúncia da repressão ao amor gay. Mas também pode servir de álibi para uma sociedade que comercializa a "diferença" sem deixar de tratar com violência gays e lésbicas. Por Sergio Domingues, fevereiro de 2006
Em primeiro lugar, "Faroeste" é a adaptação de "Far West". Em inglês, quer dizer "Oeste distante" e não "Velho oeste" como tornou-se costume dizer em português. O termo se refere às terras que os pioneiros norte-americanos saídos do leste foram conquistar no oeste. Mataram centenas de milhares de índios para fazer isso. Búfalos e outros animais também foram massacrados. Mas essa é outra história. O problema é que o filme de Lee conta uma estória que se passa no começo dos anos 1960. Portanto, não utiliza os cenários clássicos do oeste antigo. Mas, traduzir "Faroeste" por "Velho Oeste" não é de todo errado. Na verdade espaço e tempo parecem se combinar nesse caso. Boa parte do oeste americano continua velho em muitos aspectos. Velho no sentido de conservador. Os estados norte-americanos em que mais prevaleceu a escravidão ficam por lá. E é por lá que ao racismo se combinaram o machismo, a intolerância religiosa e, claro, a perseguição aos homossexuais. Vem das lideranças políticas desses lugares boa parte do apoio que Bush Jr. conseguiu para se eleger e reeleger. É um desses estados que serve de cenário para o filme de Ang Lee. Em Wyoming dois vaqueiros dividem os cuidados de um rebanho de ovelhas. Na solidão da montanha que dá nome ao filme acontece o caso de amor entre eles. Ennis é interpretado de maneira talentosa por Heath Ledger. Fechado em si mesmo, o personagem fala como se sua alma estivesse presa na armadura de seu corpo. Os lábios mal se abrem para pronunciar suas poucas palavras. Jake Gyllenhaal interpreta Jack, que é mais desinibido. Mas, sua desenvoltura sofre golpes constantes ou se rende ao lugar que lhe reservaram como discriminado. Na terra da liberdade sexual o governador é Schwarzenegger Diante da impossibilidade do amor às claras, eles procuram viver vidas normais. Se casam e têm filhos. Mas, a casca grossa que Ennis usa para administrar seu amor à família e a submissão de Jack a um casamento de conveniência também são sintomas de um problema mais geral. Suas relações de fachada somente são possíveis porque vivem num mundo em que a união entre duas pessoas não precisa ter qualquer relação com o amor. A mulher serve para parir, cuidar dos filhos e de tarefas domésticas. O homem serve para fazer herdeiros e cuidar de animais dos quais procura imitar uma pretensa brutalidade. Por outro lado, os dois vivem essa paixão numa época em que uma revolução sexual teria acontecido. Valores como família, maternidade, heterossexualidade, casamento, sofreram um enorme abalo. E os Estados Unidos seriam um dos principais palcos dessas transformações. Mas, o filme de Lee desmente essa evidência. A relação secreta e dolorida entre os dois caubóis mostra que a revolução ficou na metade do caminho. E não só nas belas montanhas e pradarias do meio-oeste americano. Ainda mais para oeste, na beira do Pacífico, temos a Califórnia. Lá onde ficam Los Angeles e São Francisco. Cidades famosas por suas comunidades gays. E Hollywood! De onde saiu o atual governador do estado, Arnold Schwarzenegger. Exterminador no cinema e carrasco na vida real, o brutamontes conservador mandou executar o negro Stanley Tookie Williams, em dezembro passado. Um ex-líder de gangues que foi indicado duas vezes ao prêmio Nobel por seu trabalho a favor da paz junto a jovens e crianças. O mesmo pode ser dito de outros lugares mais "avançados" daquele país ou do mundo. Por um lado, a capacidade da sociedade burguesa de domesticar e lucrar com a rebeldia de costumes ou com a própria discriminação. Preparar guetos em que os "diferentes" possam se encaixar e viver uma vida apartada. É o caso do "mercado pink", com seus produtos voltados para os consumidores homossexuais. De outro lado, a política dos dominadores segue ordenando o mundo de acordo com os princípios mais conservadores. E aí, milhares de gays continuam a sofrer o mesmo tipo de violência que tirou a vida de Jack no filme. "Brokeback"
mostra como relações amorosas são massacradas mesmo
na sociedade mais rica do mundo. Mas, também pode ser mais um produto
a aliviar as consciências hipócritas de quem acha que realmente
vive em uma sociedade livre. Onde dois caubóis podem até
se beijar na tela. É um filme sobre o amor gay. É um filme
sobre o amor. È um filme extremamente vendável, também.
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