“A
Batalha do Chile”
Resenha do Portal No Mínimo, fevereiro de 2006
Considerado um dos melhores documentários políticos da história, o filme foi fruto de seis anos de trabalho do cineasta chileno e resultou em quase cinco horas de duração, divididas em três partes. Na primeira, "A Insurreição da Burguesia" (1975), mostra-se a reação da direita contra a tentativa de implantação de socialismo democrático no país, com a organização de greves por sindicatos patronais e o boicote econômico imposto pelo governo americano. No segundo, "O Golpe de Estado" (1977), enfoca-se a guerra civil que levou ao bombardeio do palácio presidencial e à morte do presidente em 11 de setembro de 1973, sob a liderança de Pinochet e com o apoio da CIA. No último, "O Poder Popular" (1979), revelam-se as ações coletivas realizadas pelas comunidades populares para superar a crise durante o governo Allende, como armazéns comunitários e comitês camponeses. Nunca lançado nos cinemas brasileiros, "A Batalha do Chile" ganha agora uma primorosa edição em DVDs pela Coleção Videofilmes, em uma caixa com quatro DVDs. Além das três partes do filme, há um disco extra com os documentários "A Resistência Final de Salvador Allende", "Patricio Guzmán, uma História Chilena" e uma entrevista com o cineasta feito pelo crítico brasileiro José Carlos Avellar. No conjunto, é um dos lançamentos mais importantes nesse formato já realizados no Brasil. A produção do filme foi tão épica quanto seu resultado. Com uma equipe de apenas cinco pessoas, Guzmán iniciou seu filme disposto a documentar a primeira transição democrática ao socialismo da história da América Latina. Mas acabou se deparando com um país em convulsão, uma população rachada ao meio entre esquerda e direita, uma realidade caótica de greves, passeatas, manobras políticas e golpes militares. Depois que o governo americano embargou a venda de material cinematográfico ao Chile, a realização do filme só continuou graças à ajuda do brilhante cineasta francês Chris Marker ("La Jetée"), que enviou negativo para Guzmán, apesar de achar que seu colega chileno estava atentando contra a própria vida. E ele tinha razão. Alguns dias depois do golpe, Guzmán foi preso em casa, levado ao Estádio Nacional e ameaçado de fuzilamento. Mas, quase por milagre, acabou sendo liberado. Já o cinegrafista Jorge Muller Silva desapareceu de vez, depois de ser seqüestrado pela polícia militar. As latas de negativo foram enviadas clandestinamente por navio para Cuba, onde o cineasta montou o filme com a ajuda do Instituto del Arte y la Industria Cinematográficos (Icaic). Dois anos depois, o filme começou a circular pelos festivais, ganhou vários prêmios e colheu elogios superlativos da imprensa. A famosa crítica norte-americana Pauline Kael perguntou: "Como uma equipe de cinco pessoas, algumas delas sem nenhuma experiência prévia, conseguiu produzir uma obra dessa magnitude?" Para o documentarista João Moreira Salles, a resposta é: "Ao longo daqueles anos, a história estava em marcha e havia alguém com a férrea disposição de não desligar a câmera." Esse desejo de levar o cinema às últimas conseqüências fica evidente na cena mais famosa do filme, em que um cinegrafista baleado pela polícia filma a própria morte. O mérito da produção é colocar a câmera no olho do furacão do presente e sair dele com um retrato profundo e estruturado. Guzmán apresenta todos os lados da questão de maneira exaustiva, aborda todos os aspectos da realidade de forma meticulosa, mas consegue dar forma ao caos e torná-lo compreensível ao espectador. Não há nada no cinema brasileiro sobre o golpe de 1964 que se compare ao monumental panorama feito em "A Batalha do Chile". Para se chegar a um equivalente nacional, seria necessário lembrar da série de livros sobre a ditadura escrita por Elio Gaspari. Mas o equilíbrio de Guzmán não significa que ele prescinda de um ponto de vista. Como o cineasta deixa claro nas narrações em off, seu filme é orgulhosamente pró-Allende e contra o golpe. Aliás, como poderia ser diferente? Em qualquer época, "A Batalha do Chile" seria um filme essencial. Mas ele se torna obrigatório nas atuais condições políticas da América Latina, com o recrudescimento do reacionarismo diante da eleição de vários presidentes de esquerda, incluindo a chilena Michelle Bachelet. A obra-prima de Guzmán nos lembra que a alternativa – autoritária, intolerante, antidemocrática – é sempre pior.
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