Tecnologia
nacional aparece como alternativa para a TV digital
Por Jonas Valente, na Agência
Carta Maior, 11/1/2006
Com
a proximidade do prazo para o anúncio sobre como será o Sistema
Brasileiro de TV Digital (SBTVD), marcado pelo Ministério das Comunicações
para o início de fevereiro, acirram-se as disputas sobre qual tecnologia
será utilizada pelo país. O promissor mercado nacional, que
deve movimentar mais de R$ 10 bilhões nos próximos 10 anos,
vem sendo cobiçado pelos representantes dos sistemas internacionais,
principalmente os europeu (DVB) e japonês (ISDB). Mas, em meio às
negociações entre estes sistemas e setores do governo e do
empresariado de mídia, os resultados de pesquisas feitas por universidades
brasileiras podem apontar uma nova solução tecnológica
tupiniquim. Segundo especialistas, é possível fazer um sistema
realmente brasileiro com uso mínimo de componentes de outros países.
Esta
nova alternativa é resultado de quase um ano de pesquisas realizadas
por 22 consórcios que envolveram pouco mais de 70 instituições
de pesquisa, entre universidades e institutos e consumiram cerca de R$
38 milhões. Os estudos trabalharam com quase todo o processo, que
vai do tratamento e transmissão do conteúdo (imagens, sons
e dados) até os recursos de utilização destas informações
pelos usuários (incluindo os receptores e mecanismos de interatividade).
O resultado das pesquisas está sendo sistematizado pelo Centro de
Pesquisa e Desenvolvimento em Telecomunicações (CPqD) e a
consolidação integrada das inovações produzidas
será entregue ao Comitê de Desenvolvimento do SBTVD, formado
por representantes de ministérios envolvidos no projeto, nas próximas
semanas.
Em entrevista
à revista especializada A Rede, o assessor especial da Casa Civil
André Barbosa Filho afirmou que o SBTVD é o maior projeto
integrado universitário do Brasil depois do Genoma e já gerou
até hoje 80 inovações, número muito alto em
relação a registros de domínios e de patentes normalmente
verificadas em países latino-americanos. O assessor explica quais
os princípios que nortearam as pesquisas. “O SBTVD precisava o ser
robusto, pois a maioria das televisões no Brasil possui antena interna,
o que gera uma recepção fraca; ter interatividade, pois é
aí que se gera inclusão digital; e ter baixo custo pois a
maioria dos telespectadores é de baixa e média renda”.
Na opinião
de Gustavo Gindre, integrante da ONG Intervozes e um dos representantes
da sociedade civil no Conselho Consultivo do SBTVD, a opção
pela tecnologia nacional dará grandes ganhos ao país. “Com
isso, geramos mão-de-obra extremamente qualificada, desenvolvemos
nosso setor de pesquisa, geramos empregos, diminuímos a dependência
externa e deixamos de pagar royalties de patentes”. Para Celso Schroder,
coordenador do Fórum Nacional pela Democratização
da Comunicação (FNDC), a TV Digital com tecnologia nacional
pode ser o elemento de alavancagem de uma política industrial para
o país e da adoção de um novo papel nas relações
econômicas globais. “Quanto mais nacionais forem as bases do SBTVD,
mais autônoma será a inserção do país
no mapa da geopolítica. Esta, por exemplo, foi a opção
da China”, cita.
Segundo
Fernando de Castro, que coordenou uma das pesquisas na PUC-RS, é
possível ter um sistema realmente brasileiro pois o país
conseguiu produzir uma versão mais avançada do núcleo
deste sistema, que é a modulação do sinal (estruturação
dado às informações para o tráfego delas até
a casa dos telespectadores). “A pesquisa resultou em soluções
inovadoras, genuinamente nacionais e cujo desempenho é comparável
e, em alguns aspectos, superior ao desempenho dos sistemas internacionais
(ISDB-T, DVB-T e ATSC) já reconhecidos”, afirma Castro. É
da modulação que depende a força e a qualidade do
sinal. Pesquisa feita pelo CPqD mostrou que a maior preocupação
da população ainda é com ‘chuviscos‘ e ‘fantasmas‘
na imagem.
Outra
necessidade brasileira bem trabalhada pelos pesquisadores foi o conjunto
de soluções para serviços interativos. Takashi Tome,
engenheiro e especialista da área, destaca entre as inovações
produzidas mecanismos que possibilitam ao telespectador criar a sua própria
grade de programação (o chamado guia eletrônico de
programação) e reproduzir programas de forma não-linear
como é hoje e com alta interação (a chamada sincronia
de mídias). Tome ressalta também os aplicativos produzidos,
como serviços de correio eletrônico pela tv, acesso a informações
governamentais de interesse público (o chamado governo eletrônico)
e programas de finalidade educativa (como museu interativo).
Escolhas
e pressões
Mas a
escolha de quais soluções serão utilizadas no SBTVD
tem caráter mais político do que técnico. O sistema
japonês é defendido pela Associação Brasileira
de Emissoras de Rádio e TV (Abert), ligada às organizações
Globo, e pelo ministro Hélio Costa. Em troca dos benefícios
comerciais dado pelos fabricantes nipônicos, o Brasil adotaria a
maior parte dos componentes com algumas adaptações. Desta
forma, ficaria mantido o modelo com alta definição (HDTV)
de imagem e mobilidade, o que beneficia os radiodifusores. Esta escolha
manteria a atual distribuições de canais, e a conseqüente
concentração de propriedade na mão de oito grandes
grupos de mídia, e fortaleceria estes atores com a novidade de seus
veículos passarem a transmitir conteúdo para celular, hoje
mercado das telefônicas.
De um
outro lado, há setores do governo que defendem uma negociação
com os europeus, cujos componentes de seu sistema (DVB) podem possibilitar
avanços como convivência de programação em alta
definição e definição padrão. A defesa
do DVB se justificaria por promessas dos europeus de dinheiro para pesquisa
e de adotar tecnologia brasileira em seu sistema. Outro ponto considerado
pelos defensores de soluções ligadas ao sistema europeu é
que o modelo de alta definição japonês canibalize as
pequenas emissoras comerciais e emissoras educativas, universitárias
e comunitárias, que não possuem condições de
produzir em alta definição. Além disso, com o sinal
em HDTV a ‘caixinha‘ que irá converter o sinal digital em analógico
ficará mais cara.
O cenário
fica complexo pois a escolha pela tecnologia nacional não significa
ignorar os outros sistemas. Há inovações produzidas
em cima de partes já consagradas tanto no sistema europeu, como
os aplicativos, quanto no japonês, como a proposta de modulação
da Universidade Mackenzie. O desafio agora é montar o quebra-cabeça.
Para Takashi Tome, apesar de não ter havido um teste reunindo todas
as partes do sistema, é possível pensar em uma solução
com os componentes nacionais sem abdicar do diálogo com outros padrões
internacionais, pois “a maioria absoluta dos blocos é integrável
e complementar”.
Política
x tecnologia
No entanto,
para entidades da sociedade civil, apesar do avanço de ser considerado
o uso da tecnologia nacional, a definição do SBTVD não
é um debate técnico, mas político. As entidades continuam
criticando o ministério por não abrir o debate e envolver
o conjunto da sociedade. “Não há por que definir nada agora,
com pressa. A tv digital só pode ter seu início depois de
uma ampla discussão com toda a sociedade. O SBTVD deve atender ao
interesse público, contribuir para democratizar a propriedade da
mídia com a entrada de novos atores e promover a diversidade cultural
no Brasil”, defende Gustavo Gindre, do Intervozes.
Celso
Schroder, do FNDC, afirma que ao contrário de um sistema baseado
no padrão europeu ou japonês, era possível fazer melhores
e mais amplas escolhas. Para ele, o SBTVD poderia ser para o Brasil o que
foi o aço e o petróleo em outras épocas e cumprir
o papel de determinante em uma nova inserção do país
na economia global. O coordenador do FNDC argumenta que o debate não
poderia ficar restrito aos empresários e técnicos do governo
e deveria considerar, além do aspecto econômico mais estratégico,
as possibilidades de democratização da comunicação
no país.
No entanto,
para Schroder o jogo parece decidido. “O que não esperávamos
era o governo ceder ao lobby da Rede Globo pelo padrão japonês
de uma forma tão escancarada como vem ocorrendo nos últimos
meses. Uma vez que o governo virou as costas para os interesses que não
sejam os dos "donos da mídia", à sociedade resta torcer para
que a transferência de tecnologia e o pagamento de royalties, além
da importação de equipamentos, não inviabilize nossa
balança comercial e nossa indústria”, lamenta.
Núcleo
Piratininga
de Comunicação
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