FSM:
Globo tenta aterrorizar leitores contra FSM e governo Chávez
Por Claudia Santiago, janeiro de 2006, no Boletim NPC 81 “Sombra chavista sobre o Fórum Social Mundial” (O Globo), “Fórum Social não consegue explicar como é financiado” (Folha de S.Paulo), “Oposição critica Chávez por gastos do Fórum” (Estado de S.Paulo).
Sobre a passeata poucas linhas. Sobre os gastos feitos pelo governo da Venezuela com o FSM, todas as linhas. Já imaginaram esta ira toda em serviço da defesa das riquezas espoliadas dos países da América Latina, entre eles o Brasil? Já imaginaram esta ira usada para informar, como fez Eduardo Galeano “que com o gás boliviano estava sendo repetida uma história antiga de tesouros roubados ao longo de mais de quatro séculos, desde meados do século 16: a prata de Potosí deixou uma montanha vazia, o salitre da costa do Pacífico deixou um mapa sem mar, o estanho de Oruro deixou uma multidão de viúvas?” Já imaginaram esta ira toda sendo usada para denunciar a criminosa e secular estrutura fundiária brasileira que concentra 90% das terras nas mãos de um punhado de proprietários rurais? Ou para protestar contra a transmutação, como explica o professor Andrelino Campos, dos quilombos nas favelas cariocas, onde o branco pobre, o migrante e os negros são submetidos à violência do Estado e de bandos de criminosos? (Do Quilombo à Favela Andrelino Campos. Editora: Bertrand Brasil. R$ 24,90) Mas isso tudo é bobagem, é detalhe para os grandes jornais. Seria auto-denúncia. Ou não são os proprietários de jornais membros da classe que domina e explora há 500 anos o povo trabalhador brasileiro? Sobre o FSM, O Globo só fala abobrinhas
O tom da cobertura que O Globo viria a fazer do maior evento da esquerda mundial foi dado na edição do dia 23 de janeiro. Na véspera da abertura, o jornal trouxe uma matéria que deixa claro todo o seu mau humor com o Fórum Social Mundial. Os grandes temas da cobertura de O Globo foram o caos no trânsito, engarrafamento, calor, financiamento por parte do governo Chávez e a confusão geral. Vejamos alguns trechos: • Para complicar, pela primeira vez o espaço do evento será dividido em áreas diferentes da cidade anfitriã. Ainda devido ao viaduto, os participantes que estão em hotéis distantes do FSM terão de fazer percursos ainda mais longos. Isso numa cidade quente e abafada: venta pouco e chove menos ainda em Caracas. • Não há garantia de que as coisas ocorram como planejadas. Um dos temores dos organizadores é de que o presidente Hugo Chávez ocupe espaço demais nos eventos. • Ao contrário das edições anteriores em Porto Alegre e em Mumbai, na Índia, as atividades ocorrerão em vários locais. No entanto, o transporte entre os locais é só uma promessa dos organizadores. A idéia é distribuir passes gratuitos do metrô para os participantes. • Outra dificuldade será conseguir retirar crachás e materiais do FSM. A própria programação do FSM não tinha sido distribuída até a última sexta-feira. Os organizadores adiaram as adesões para até a última hora e é esperada uma grande confusão nos locais de acesso. Quem participou das edições brasileiras sabe que estas dificuldades não são um problema da Venezuela. Será que Caracas esteve mais quente do que Porto Alegre no ano passado? Há garantias de que as coisas aconteçam como planejadas em um evento com a participação de mais de 100 mil pessoas de praticamente todas as partes do mundo? Por acaso em eventos deste porte é possível não haver filas para retiradas de crachás e materiais? Será esta a primeira vez que a programação foi distribuída na última hora? Globo e Veja de mãos dadas contra a esquerda Na matéria na edição de domingo, dia 29, O Globo volta à campanha contra Chávez. Título e sub-título induzem o leitor ao erro. Internacional chavista e Presidente venezuelano quer bloco antiimperialita. A Folha de S. Paulo é bem mais honesta: “Fórum troca discurso pela paz por luta contra o imperialismo.” Por que o erro? Porque não é Chávez quem propõe a mudança na filosofia do FSM, mas organizações que participam do evento desde sua criação. Na campanha contra o governo democraticamente eleito de Hugo Chávez, o jornal O Globo está de mãos dadas com a Veja. A peça produzida pela revista na edição 1941 para tratar do apoio da Venezuela à Escola de Samba carioca Vila Isabel é de fazer rir qualquer pessoa em sã consciência mesmo que seja parte da classe média assustada com medo da esquerda. Vejamos o diz o primeiro parágrafo do artigo: “A farra de autopromoção que Hugo Chávez vem fazendo à custa do dinheiro do povo venezuelano é um crime à espera de castigo. Chávez oferece petróleo a preços módicos a países cujo apoio quer conquistar _ como a Bolívia _, dá sobrevida à moribunda ditadura castrista em Cuba e inebria os intelectuais da esquerda brasileira com suas promessas de dinheiro farto. Sua última cartada é o samba”.
Como nos anos anteriores Veja manteve a tradição de esconder o FSM em suas capas. Nas outras edições, sempre colocou matérias sobre aspectos marginais, como a torta na cara do então deputado José Genoíno ou as barraquinhas vendendo cachaça com a imagem estampada de Che Guevara. Desta vez, havia uma novidade: a realização do Fórum era na terra de Chávez, seu atual inimigo número 1. (Vide edição da semana do golpe da direita em 2002 contra Chávez). Neste ano não teve matéria nenhuma. O assunto foi tratado através de um colunista. Vejam que beleza de opinião sobre nosotros: “Esse fórum é uma romaria de jovens (e de madurões infantilizados) em busca de um sentido para a sua agenda política”. No final se contradiz ao dizer que os participantes do FSM sabem bem o sentido da sua agenda política que, segundo o colunista, seriam o combate à economia de mercado e à democracia. Agora, uma das afirmações do jornalista nos agrada. Ele diz: “Não são inofensivos”. Nisso, pelo menos, ele tem razão. Não somos mesmo! E nem são inofensivos os milhões de jornais e boletins que produzimos diariamente em todo o país, através da imprensa sindical e popular e da imprensa alternativa de jornais e revistas como Caros Amigos, Brasil de Fato, Reportagem e outras. Essas e outras reforçam todos os dias a necessidade de os trabalhadores terem a sua própria imprensa. Como disse, há alguns anos, o então assessor de imprensa do Sindicato dos Químicos de São Paulo e hoje professor da USP, Valdeci Verdelho: “Uma imprensa que comunica o que lhes diz respeito e o que é de interesse de sua classe”. Por isso,
caros amigos, cuidemos bem de nossas publicações!
_________________
|