Reportagem de Veja provoca manifestações virtuais, de rua, de ONGs e dos movimentos sociais
Por Cristina Charão, do Repórter Social (www.reportersocial.com.br), 20/1/2006


Nesta quinta-feira, a escadaria da Catedral da Sé foi o palco da primeira manifestação de rua em que o boicote à revista Veja foi pregado. O ato, convocado inicialmente para lembrar o 17º mês sem solução para o caso do massacre de nove moradores de rua na capital paulista, transformou-se em uma sucessão de menções à ação parcial da revista.

Pela Internet, circulam dezenas de “mensagens de repúdio” à publicação de um texto sobre os projetos de recuperação do centro da cidade de São Paulo, cujo box insultava o Padre Júlio Lancelotti, da Pastoral de Rua, e um dos mais reconhecidos lutadores pela causa de crianças e moradores de rua. 

Os protestos incluem uma campanha organizada pelo Instituto Polis e outras organizações ligadas à Associação Brasileira de ONGs (Abong) – para incentivar a manifestação dos leitores contra a revista. (Veja a íntegra do texto do instituto)

Não é a primeira vez que Veja é alvo de campanhas semelhantes. Em 2003, o MST, a CUT, a UNE e a Rede Social Justiça e Direito Humanos chegaram a lançar o mote “Veja que mentira!” para tentar diminuir o número de assinantes da revista. À época, a avaliação foi de que a revista é um símbolo da manipulação da imagem dos movimentos sociais pela mídia.

A matéria que desencadeou a nova onda de protestos – “A solução é derrubar” (8/1/2006) – defende claramente o projeto de “revitalização do centro de São Paulo” posto em prática pela atual gestão do prefeito José Serra. Ações como a construção de rampas sob viadutos, para evitar que sejam usadas por moradores de rua, e a demolição de 850 imóveis na região conhecida como Cracolândia, vários deles ocupados por sem-tetos, vem sendo veementemente questionadas pelos movimentos sociais e organizações de direitos humanos. 

O próprio Ministério Público de São Paulo formalizou, em dezembro, um pedido de esclarecimentos sobre a construção das rampas. O conteúdo do manifesto reforça a avaliação dos movimentos da campanha “Veja que mentira” que protestam contra as desqualificações feitas ao padre Júlio Lancelotti. Segundo a revista, por motivos políticos, “o padre quer transformar uma situação precária – a dos sem-teto e que tais – em permanente (sic)”.

Para padre Júlio, a matéria “é uma reação orquestrada, organizada, encomendada por aqueles que estão fazendo esta operação de limpeza e higienismo e que, para reagir contra aqueles que tem feito esta denúncia, desqualifica o interlocutor”. “Esta estratégia é usada sempre: desqualificar o interlocutor para dizer que o que aquela pessoa está falando não é bom. É a estratégia que Prefeitura está usando. É a estratégia da direita, do autoritarismo”, afirmou o sacerdote à reportagem da Agência Repórter Social.

A assessoria do subprefeito da Sé, Andréa Matarazzo, responsável pelos projetos da prefeitura no centro e também única fonte a ser citada com aspas na matéria da revista Veja, foi procurada pela reportagem. Matarazzo não respondeu se gostaria de comentar as afirmações do líder da pastoral.

Outro fato, no entanto, dá força à idéia de “reação orquestrada” defendida por padre Júlio. Uma semana antes da publicação da matéria da revista, o jornal O Estado de S. Paulo publicou editorial de conteúdo semelhante. Sob o título “Parasistas da mendicância”, o jornal usa do mesmo argumento da revista – afirmando que, sendo o problema dos moradores de rua o argumento para obter dinheiro público e privado, as ONG’s que se opõem ao projeto “por conveniência própria, pretender perpetuar” o problema social. O jornal também foi lembrado algumas vezes durante o ato na Praça da Sé.

Veja é fascistóide, diz Benevides

Na Sé, a socióloga Maria Vitória Benevides foi uma das personalidades a bater mais forte na revista. “O caso da Veja é mais do que anti-democrático. É fascistóide mesmo”, disse Benevides. “É uma posição de quem confunde pobreza e miséria e quem está do lado dele com subversão. Isso é absolutamente insuportável agora, em pleno século XXI.”

As manifestações dos moradores de rua que participaram do ato também mostram o tamanho da repulsa criada pela matéria. “Diz lá que o padre explora a gente. Ele não explora, nos apóia”, repetiu várias vezes Leia Oliveira, catadora da Coopere-Central Sé. Aldo Bispo dos Santos, agente de saúde da rua (projeto do Centro Social Nossa Senhora do Bom Parto, apoiado pela Pastoral de Rua), tocou na questão real da matéria, a disputa pelos rumos do centro de São Paulo. “Não somos contra o progresso e a urbanização da cidade, mas isso não pode acontecer simplesmente sem ver as pessoas da rua”, discursou. “Somos contra a segregação social.”

Ex-morador de rua, o catador Sebastião Nicomedes de Oliveira, atacou primeiro as políticas do governo municipal. “Colocar rampa, muro, soltar polícia pra tomar os pertences dos moradores de rua, tomar os espaços para construir prédio de luxo... não se acaba com a miséria matando a miséria. Se acaba com a miséria gerando emprego, gerando renda”, afirmou Oliveira, que é membro do Conselho Municipal de Assistência Social, representando os usuários de albergues. Já sobre a imprensa, Oliveira preferiu falar em “violência moral”. “Querem acabar com a violência? Acabem com a violência moral”, disse, emocionado. “Quem publica matérias como essas, colocando a sociedade contra nós, nos humilhando, está gerando violência.”

Depois de discursar, Oliveira desceu as escadas da Sé e voltou para o lado do seu carrinho, onde carrega o papel que coleta nas ruas. Dentro do carrinho, um cartaz feito com recortes das páginas da matéria publicada pela revista invertia o sentido do título. Lia-se: “Derrubar Veja é a solução”. “Pra mim, a solução é derrubar estes discursos”, explicou o catador.
 


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